sábado
Cabo da Boa Esperança
Você sabe que está dobrando o Cabo da Boa Esperança quando os pais de seus colegas de trabalho são mais novos do que você!
segunda-feira
Mamanguá - Lugar de Comer 2
Não havia clareado e os dois já de pé, meio sem jeito, meio
sem cor, naquele breu todo. As tralhas espalhadas pelo chão da sala, só aguardavam
o momento certo de embarcar. O sono, nem bem ido, ainda recordava o barulho da forte
chuva de denso orvalho, que deixava tudo molhado e escorregadio.
Na cozinha, um coberto fora da casa, breve café, modo de
dizer, pois, só pão e queijo mesmo para sustentar o estômago. A jornada se avizinhava
e dava dó deixar aquele lugar. Havia
sido bom aqueles dias, sol forte em pleno julho, mar azul, mas água fria, pelo
menos pro meu gosto.
Pegamos as tralhas e caímos na praiazinha em frente à casa, poucos
passos apenas, curta e calma. Do outro lado da baía, o que sobressaía era um
cocuruto careca, também Pão de Açúcar, que recebia as primeiras claridades do
dia.
O cheiro àquela hora era bom demais. Meio mata, meio mar,
meio fresco da manhã. Olhei em torno, duas casas de caiçara mesmo, rente a
areia, a grande com varanda e a pequenininha acolhedora, hospitaleira. Dois
quartos, sala, banheiro com água quente de aquecedor a gás – que trabalheira
trazer o botijão – mais a cozinha no puxado. Coisa ajeitada, coisa de
estrangeiro.
Divagação de quem pretendia ficar, mas a pressa de partir
tinha motivo, o vento da manhã começava a soprar perto da última curva, onde a
baía encontrava o mar e não deixava manobra para contemplações. Só restava ir-se
embora!
Ali mesmo, ao pé da água, resolvemos quem seguia
do que. Ele de canoa, eu a pé, quem chegasse primeiro, chegava. A experiência
era pra ver o caminho certo por terra, em caso de emergência. Fiquei encabulado de remar sozinho
naquela grandeza, coisa de sujeito bisonho. Então, peguei a picada, mas me
arrependera, o morro íngreme, trilha de cobra viva, cheia de curva, se
avizinhava problema.
Desejamos boa sorte recíproca e empaquei mais um pouco na enseada me despedindo. Sabia que
não voltava tão cedo. Coloquei a mochila nas costas, afivelei o cinto e comecei
devagarzinho a caminhar, firmando o passo para não escorregar. Numa curva,
ainda no começo, encontrei um mirador donde se enxergava longe, a
boca do saco entrando no mar.
Parei. Naquele sol quase saindo, sobressaía a trilha toda de
mata, um subir e descer imenso e eu, de imediato, bufando! Aproveitei
para respirar e contemplar o resto do Mamanguá, lugar de comer, li, e devia ser
verdade, pois no fundo persistia o mangue. Então, olhei além, saquei a máquina
e bati, sem compromisso, sem querer. Pode parecer mentira, quase nem aparece de
tão distante, mas a canoa avançava desenhada na natureza gigante e sumia rápida.
Eu, eu me largava parado, como a querer
ficar, seu moço...
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