Havia já várias horas na mesma toada e chegava perto o fim da tarde.
Antes de escurecer era preciso encontrar lugar para montar acampamento.
Rio Cristalino, entre Araguaia e Mortes, merecia o nome! Vinha
serpenteando desde a nascente em baixios, pequenos canais, lagoas, sempre com
água translúcida e quase pura, ainda era bonito demais.
Nas margens, entre um rancho e outro, as fazendas dominavam. Mata ciliar
aqui e ali dava as caras, mais cerrada, mais mirrada, mas sempre com um
rastrinho.
Tinha leve lembrança daquele trecho do rio e da praia depois da curva,
Certeza, certeza não podia asseverar, já fazia alguns anos desde a última vez e
a memória fraquejava.
Embiquei a proa mais para contorno aberto, pior para remar, mas queria
ver se a dita estava lá e ainda do mesmo jeitão.
Depois de algum tempo nessa prática, você começa a conhecer os caprichos
de rio que, como mulher, resolve mudar nossa vida assim, de supetão, sem
avisar, sem comunicar. De uma estação para outra, o que tinha lá, podia não
estar mais.
Em época de chuva, violento, invade pastagens, derruba árvores, abre
passagem à força e vem carregando tudo que encontra pelo caminho. Quando seca,
a história é outra, corre pro seu destino, dentro da normalidade, mansinho, mansinho...
Desta vez o danado tinha deixado tudo como antes e, no final da curva, a
bonita apareceu, areia branquinha, bem larga na beirada d’água e estreitando
conforme ia sumindo de vista, para terminar numa lagoa perene, lagoa de
lontras, assim ouvira dizer por que, ir até lá, não me animei não.
De um lado, a mata densa e preservada, sombreava um corredor de areia, do
outro, apenas uns cocurutos pingados de capim. Alguns paus fincados, restos de
uma bancada, eram os únicos vestígios de gente que por lá havia ficado.
Apressei a remada e nem me preocupei em enfiar a popa na areia, quase até
a metade do barco, coisa de gente bisonha, pensei. Remador experiente como
mestre Tonico, mostrava destreza e habilidade, manobrava a bicha encostando de
bombordo ou estibordo e descendo com os pés fincados em terra firme.
Cansado, queria mais chegar! Meu desejo era aprontar tudo logo, dar um
mergulho e relaxar à beira do fogo, junto dos capebas. Naquela lonjura pouca coisa restava.
Desembarquei e fui procurar lugar para armar acampamento. Desejava um
sombreado fresco, plano e sem o orvalho da madrugada. Quando encontrei, velho
Caco já havia tomado posse. O impasse
quase certo se dissolveu de imediato. Por reverência e primazia da idade,
declinei e me contentei com um meio termo, pouco mais distante, entre galhadas
e Sol, mas bastava empurrar a barraca um pouco mais para o fundo que ia dar um
bom lugar.
Depois de tudo pronto, voltei para o rio e me deixei ficar deitado na
água límpida, refazendo as energias. Calorão danado fazia em julho naquela
terra. Para os nativos era alta estação, verão de tempo firme, nenhuma chuva,
tempo de fugir da cidade e acampar ao longo das praias que apareciam nos rios.
No Araguaia, caudaloso, largo, barrento e de fácil acesso, elas ficavam lotadas
de barracas, bares improvisados, som no último volume e de gosto duvidoso,
lanchas, Jet-skis, vendedores ambulantes, toda fauna semelhante, igual às análogas
do litoral.
Já o Cristalino, exigia poeira, buraco e quilômetros de disposição.
Acabava afastando gente acomodada, preguiçosa por conforto, mesmo assim, de
para em par, aqui e ali, famílias inteiras acampavam com requintes de conforto,
com gerador, chuveiro quente, geladeira e traquitanas de cidade.
E o danado tinha motivo de sobra para chamar Cristalino! Em quase toda
extensão se via o fundo arenoso, as plantas aquáticas, algumas tartarugas, um
ou outro jacaré ainda incólume às armas goianas. Nas enseadas rasinhas, dava para
observar os ninhos redondos de tucunaré, cardumes de pequenos peixes e as arraias,
muitas, que se escondiam e se confundiam com a areia.
Sobre elas, tinha sido alertado diversas vezes que todo cuidado se fazia
necessário. Quando alguém pisava numa, o ferrão pontiagudo rasgava a pele
injetando veneno. Dor quase insuportável aquela, depois, febre constante, as
chagas purulentas que podiam durar meses, anos até, e o pior, a aventura
peridada. Afinal, o sujeito ficava imprestável, sem conseguir remar, nem nada. Por
isso, sempre recomendavam entrar na água arrastando os pés, fazendo barulho com
a pá do remo para afugentar as danadas.
Mais bonito que o rio, se é que podia ter, era o céu, sem branca nuvem,
dum azul de queimar os olhos! Quando amanhecia ou anoitecia, então, um festival
de vermelhão alaranjado se sobrepondo e competindo para ver quem ganhava. Noite
sem lua, bastava fixar a vista no firmamento que parecia festa no céu, estrela
de perder a conta.
Ensimesmado, saí da água. De banho
tomado, roupa seca e limpa, sentei junto dos demais à beira da fogueira. Entre
uma talagada e outra de abrideira, me deixei ficar, contemplando a imensidão solitária
do cerrado. Aqui e ali, abrolhava uma conversa fiada que murchava e ressurgia,
murchava e ressurgia, fazendo eco ao canto do Jaó, dolente, saudoso, como se
soubesse que mais cedo ou mais tarde, seu encontro com a pintada havia de lhe
dar cabo à existência!
Contava a gente matuta, conversa para boi dormir, é claro, que a onça,
esperta como ela só, ficava ali, quietinha, quietinha, imitando o canto da ave
terreira - do tamanho e da idiotice da galinha - que vinha vindo para ver o que
é que há e, quando chegava já era. A danada papava a janta.
Expulsei a tontice da cabeça, tomei mais um gole da Parati e esfreguei
com carinho a caixa de madeira. O amarelo-dourado da embalagem, a tipologia
antiga, tudo remetia ao que eu considerava de melhor. Apreciei tempos passados
quando ainda tinha verba para queimar.
Abri com cuidado, no fundo ainda repousavam dois estoura peito. Havia
comprado 15, isso significava que a jornada chegava perto de seu destino, a
balsa para Luis Alves.
Saquei um e rolei - mais por habito que sabedoria de profundo conhecedor
- entre o indicador e o polegar por alguns segundos. Coloquei-o entre os lábios
e acendi o ordinário. Absorvi uma bela baforada, suspirei e divaguei cá comigo,
mesmo aquele fedorento tinha lá seu sabor!
Não que não houvesse bons baianos, muito pelo contrário, só que no momento
estavam caros para o meu bolso, então o negócio era se contentar com aquele
mesmo, sem marca, vendido a granel, escondido num canto da prateleira (de
baixo), bem longe dos bons nacionais e mais distante ainda dos cubanos.
Recostei na cadeira e deixei o pensamento fluir. Só mais dois charutos,
que pena! Por que não havia comprado mais? 20 quem sabe? Quem sabe conseguiria
enganar a verdade, com a falsa sensação de alongamento da aventura, de que
ainda faltavam mais dias, afinal, ainda há charutos na caixa!? Quem sabe a dilatação
dessa sensação boa, de se deixar ficar, sem hora, sem compromisso? Perdido,
escondido, no meio do mato, comigo mesmo?
Olhei em derredor, parecia que meus pensamentos tinham contaminado o
grupo. A conversa havia esmaecido, restavam muxoxos tímidos de tristeza, todos
olhavam o nada, acabrunhados, perdidos.
Qual, cérebro maldito. Dentre em pouco a viagem faria parte de nossas
histórias, ficaria no passado, na lembrança quase apagada da memória.
Voltaríamos para o dia-a-dia entediante de cidade grande, para a estafante
rotina do caos urbano.
Contra o inevitável não havia o que fazer. Melhor era se deixar largar
naquela calma bucólica de um paraíso quase perdido, por ora era melhor
esquecer os compromissos agendados e a aflição das contas, por ora era melhor
esquecer os problemas domésticos que espreitavam a chegada, por ora era melhor
apreciar aquele baiano vagabundo e espantar com sua fumaça tóxica os
pernilongos renitentes que insistiam em zumbir em meu ouvido, apenas por ora...