quinta-feira

O Bilhete

Desde que cheguei, o bilhete de loteria está lá, na outra mesa, abandonado, metade dele debaixo de um caderno espiral com capa de coala. Um asterisco, marcado ao lado do número 21 - em caneta bic azul marinho - absolutamente não me diz nada. Mas, para alguém devia representar sorte, ou pelo menos, fazer parte de uma lista pré-determinada daqueles que sempre usam os mesmos números em todas as suas apostas.
Todo dia nos olhamos e reciprocamente nos ignoramos. Ele me deixa seguir meu caminho e eu não tomo nenhuma providência, nem para dar-lhe um fim mais digno do que mofar em uma mesa de escritório, jogando-o no lixo reciclável, ou lembrando-me de apostar em uma lotérica aqui perto. Apenas nos saudamos com o olhar frio e distante que deve haver entre um papel e um ser humano e nada mais.
Para muitos, poderia ser um sinal do destino me avisando que deveria apostar, afinal, quantas mesas de quantos escritórios pode ficar um mísero bilhete, todos os dias, durante semanas sem ser tocado por faxineiras ou funcionários?  Para mim, é apenas a sina de uma mesa vazia, sem utilidade prática a não ser acumular papéis.
A cada noite, antes de sair, fico relutante e penso em dar cabo ao bilhete, mas vou embora e acabo me convencendo que isso deveria ser feito por outra pessoa, nem me despeço, nem me comovo. Apenas parto acabrunhado com minhas preocupações, angústias e dúvidas, dizendo a mim mesmo, amanhã quem sabe? Posso jogar ou jogá-lo. Mas somente amanhã, quem sabe.

Tateando o Futuro

Eu, eu não sei muito bem o que faço aqui, não. Até hoje, jamais descobri por que vim, nem tampouco ninguém me falou. Das vezes que tentei raciocinar, ganhei só dor de cabeça. Outras, que acreditei por conta própria ter sabido, a resposta era vã, puro tiro no escuro. Vou tateando assim, assim, meu futuro, quem sabe recebo a resposta do destino, já lá quando for bem velhinho e inútil pra tantas coisas. Quem sabe, porém duvido. A coisa deve ser mais incerta, tão negra quanto o breu, ou pelo menos fim de tarde, aquele lusco-fusco danado que mais confunde do que clareia. Muito mais embaixo mesmo. Até lá, sei não o que fazer, como agir ou que direção seguir. Tô no mundo torto, sem pai nem mãe, sem eira nem beira...mas continuo aqui, pro que for preciso. Oxalá Deus me ajude e os ruinzinhos não me perturbem, assim será.