Hoje em dia, há muitas ditaduras; a ditadura da moda, a ditadura do corpo, a ditadura do politicamente correto, a ditadura do sucesso, a ditadura da juventude, a ditadura da eterna juventude também, a ditadura da alimentação saudável, a ditadura de ter e sempre mais, a ditadura do neoliberalismo, a ditadura dos eco chatos....o mundo ficou pequeno para tantas limitações.
No meu tempo era bem mais fácil identificar quem realmente precisávamos combater. A ditadura era só política.
terça-feira
segunda-feira
O Picolé de Perereca
A notícia era clara e límpida como o
Tietê. Saiu na primeira página do jornal: homem acha perereca ao morder picolé e passa mal.
O indivíduo, de idade não revelada, caminhava
nas proximidades do Jóquei e queria morder um picolé que abunda naquela região,
mas acabou com a boca na perereca, que também existe, mas em menor quantidade.
As testemunhas asseveraram que o susto
foi tão grande que, o fulano passou mal e desmaiou nos braços, não sem antes
procurar em derredor, de um transeunte alto, bonito e musculoso. Foi preciso
reanimá-lo com vigorosos exercícios de respiração boca a boca com direito a
carícias e chamegos.
Quando a polícia finalmente chegou para
averiguar os fatos, o dito, o homem do picolé, que encontrava-se em condições bem
melhores, mas ainda muito abalado, jogou-se imediatamente nos braços do tenente
de olhar penetrante, calças justas, braços definidos e rosto quadrado, cujo nome Roque, bordado em dourado - obra de sua mãe - no uniforme cinza da PM lhe
conferia ainda mais o charme rude, porém sensível de todo metrossexual; e reclamou
em alto e bom som para quem quisesse ouvir que haviam lhe vendido gato por
lebre.
Ninguém entendeu o queixume porque o
sabor de gato, como todos sabem, é parecidíssimo ao da lebre, porém, bem mais barato!
O burburinho se avolumava, a plebe excitada gritava, vaiava, ululava de parte a
parte, uns defendendo o querelante, outros partindo para um princípio de puxões
de apliques, perucas, deslocamento de silicones e bofetões a esmo.
À polícia não houve alternativa e antes
que a confusão perturbasse o sossego de Cidade Jardim, enfiou todas as
testemunhas, entre elas o homem do picolé, bem no meio do camburão que saiu
loucamente com sua sirene piscante em direção à delegacia mais próxima.
Semanas depois do incidente, a
reconstituição dos fatos é bastante imprecisa, nebulosa, as pistas esparsas e
desencontradas. Há pelo menos duas versões.
As más línguas, que além de trabalharem
em ambiente insalubre, não sabem outra coisa a não ser fofocar, dizem que o
tenente Roque, o de olhos penetrantes, e o homem do picolé, voaram para as
ilhas Cayman e, neste momento, estão usufruindo a herança de uma velha tia que labutava
no La Licorne da Major Sertório e quando este faliu foi parar na sarjeta da
Amaral Gurgel.
Em companhia de Thor Batista e seu
possante Porsche descapotável - o que deixa suas madeixas louras mais lindas e
esvoaçantes ainda - passeiam o dia todo, ao Deus dará, bebendo champanhe Cristal.
Outras testemunhas asseveram que o
tenente Roque deu baixa da corporação, vive na periferia de São Paulo, em
companhia do homem do picolé e passam o dia treinando luta Greco-Romana.
Pretendem competir nas próximas Olimpíadas a serem realizadas no Rio de Janeiro
em categorias diferentes.
Inclusive, argumentam, Roque vai mudar de sexo
e identidade, passará a se chamar Lindofalda - homenagem ao pai, Lindolfo e a
mãe Mafalda - e, ambos, Lindofalda e o homem do picolé, cuja identidade jamais
saberemos, casarão de papel passado, tudo preto no branco.
Se a operação sair pela culatra, já que
os recursos são parcos e a única clínica que aceitou fazer a operação é
clandestina e pertence a dois médicos bolivianos sem CRM, mas com um estoque de
benzina suficiente para explodir o quarteirão, a Roque, ainda restará a Paraolimpíada
e o amor do homem do picolé.
Mas tudo são conjecturas de quem nunca
foi repórter ocular da história.
sexta-feira
Picolé com Perereca
Deu no jornal: homem acha perereca ao morder picolé e passa mal.
Também, pudera, ele esperava uma coisa e encontra outra!
segunda-feira
Coffee Break
Na virada cultural, passo em frente a um treme-treme na antiga boca do lixo, hoje cracolândia, que ostenta uma placa com as seguintes informações: hotel Tobias Barreto, com estacionamento e coffee break.
Fico a imaginar a contratada bem no meio do serviço, algumas de boca cheia, falando para o seu parceiro de ocasião: - amor, agora é hora do coffee break, daqui a quinze minutos terminamos o serviço!
Tempos modernos, fodas rápidas, mas sempre com direito a cafezinho no meio, afinal, ninguém é de ferro.
Fico a imaginar a contratada bem no meio do serviço, algumas de boca cheia, falando para o seu parceiro de ocasião: - amor, agora é hora do coffee break, daqui a quinze minutos terminamos o serviço!
Tempos modernos, fodas rápidas, mas sempre com direito a cafezinho no meio, afinal, ninguém é de ferro.
terça-feira
Legítima Defesa
Leio na internet que moça bêbada morde cachorro e este revida em legítima defesa. Não haverá acusação contra ele, completa a matéria. Já a moça deve passar uns meses no xilindró. Está certo. Como diria o ex-ministro Magri, cachorro também é gente!
sábado
Cabo da Boa Esperança
Você sabe que está dobrando o Cabo da Boa Esperança quando os pais de seus colegas de trabalho são mais novos do que você!
segunda-feira
Mamanguá - Lugar de Comer 2
Não havia clareado e os dois já de pé, meio sem jeito, meio
sem cor, naquele breu todo. As tralhas espalhadas pelo chão da sala, só aguardavam
o momento certo de embarcar. O sono, nem bem ido, ainda recordava o barulho da forte
chuva de denso orvalho, que deixava tudo molhado e escorregadio.
Na cozinha, um coberto fora da casa, breve café, modo de
dizer, pois, só pão e queijo mesmo para sustentar o estômago. A jornada se avizinhava
e dava dó deixar aquele lugar. Havia
sido bom aqueles dias, sol forte em pleno julho, mar azul, mas água fria, pelo
menos pro meu gosto.
Pegamos as tralhas e caímos na praiazinha em frente à casa, poucos
passos apenas, curta e calma. Do outro lado da baía, o que sobressaía era um
cocuruto careca, também Pão de Açúcar, que recebia as primeiras claridades do
dia.
O cheiro àquela hora era bom demais. Meio mata, meio mar,
meio fresco da manhã. Olhei em torno, duas casas de caiçara mesmo, rente a
areia, a grande com varanda e a pequenininha acolhedora, hospitaleira. Dois
quartos, sala, banheiro com água quente de aquecedor a gás – que trabalheira
trazer o botijão – mais a cozinha no puxado. Coisa ajeitada, coisa de
estrangeiro.
Divagação de quem pretendia ficar, mas a pressa de partir
tinha motivo, o vento da manhã começava a soprar perto da última curva, onde a
baía encontrava o mar e não deixava manobra para contemplações. Só restava ir-se
embora!
Ali mesmo, ao pé da água, resolvemos quem seguia
do que. Ele de canoa, eu a pé, quem chegasse primeiro, chegava. A experiência
era pra ver o caminho certo por terra, em caso de emergência. Fiquei encabulado de remar sozinho
naquela grandeza, coisa de sujeito bisonho. Então, peguei a picada, mas me
arrependera, o morro íngreme, trilha de cobra viva, cheia de curva, se
avizinhava problema.
Desejamos boa sorte recíproca e empaquei mais um pouco na enseada me despedindo. Sabia que
não voltava tão cedo. Coloquei a mochila nas costas, afivelei o cinto e comecei
devagarzinho a caminhar, firmando o passo para não escorregar. Numa curva,
ainda no começo, encontrei um mirador donde se enxergava longe, a
boca do saco entrando no mar.
Parei. Naquele sol quase saindo, sobressaía a trilha toda de
mata, um subir e descer imenso e eu, de imediato, bufando! Aproveitei
para respirar e contemplar o resto do Mamanguá, lugar de comer, li, e devia ser
verdade, pois no fundo persistia o mangue. Então, olhei além, saquei a máquina
e bati, sem compromisso, sem querer. Pode parecer mentira, quase nem aparece de
tão distante, mas a canoa avançava desenhada na natureza gigante e sumia rápida.
Eu, eu me largava parado, como a querer
ficar, seu moço...
sexta-feira
quinta-feira
O Bilhete
Desde que cheguei, o bilhete de loteria está lá, na outra mesa, abandonado, metade dele debaixo de um caderno espiral com capa de coala. Um asterisco, marcado ao lado do número 21 - em caneta bic azul marinho - absolutamente não me diz nada. Mas, para alguém devia representar sorte, ou pelo menos, fazer parte de uma lista pré-determinada daqueles que sempre usam os mesmos números em todas as suas apostas.
Todo dia nos olhamos e reciprocamente nos ignoramos. Ele me deixa seguir meu caminho e eu não tomo nenhuma providência, nem para dar-lhe um fim mais digno do que mofar em uma mesa de escritório, jogando-o no lixo reciclável, ou lembrando-me de apostar em uma lotérica aqui perto. Apenas nos saudamos com o olhar frio e distante que deve haver entre um papel e um ser humano e nada mais.
Para muitos, poderia ser um sinal do destino me avisando que deveria apostar, afinal, quantas mesas de quantos escritórios pode ficar um mísero bilhete, todos os dias, durante semanas sem ser tocado por faxineiras ou funcionários? Para mim, é apenas a sina de uma mesa vazia, sem utilidade prática a não ser acumular papéis.
A cada noite, antes de sair, fico relutante e penso em dar cabo ao bilhete, mas vou embora e acabo me convencendo que isso deveria ser feito por outra pessoa, nem me despeço, nem me comovo. Apenas parto acabrunhado com minhas preocupações, angústias e dúvidas, dizendo a mim mesmo, amanhã quem sabe? Posso jogar ou jogá-lo. Mas somente amanhã, quem sabe.
Tateando o Futuro
Eu, eu não sei muito bem o que faço aqui, não. Até hoje, jamais descobri por que vim, nem tampouco ninguém me falou. Das vezes que tentei raciocinar, ganhei só dor de cabeça. Outras, que acreditei por conta própria ter sabido, a resposta era vã, puro tiro no escuro. Vou tateando assim, assim, meu futuro, quem sabe recebo a resposta do destino, já lá quando for bem velhinho e inútil pra tantas coisas. Quem sabe, porém duvido. A coisa deve ser mais incerta, tão negra quanto o breu, ou pelo menos fim de tarde, aquele lusco-fusco danado que mais confunde do que clareia. Muito mais embaixo mesmo. Até lá, sei não o que fazer, como agir ou que direção seguir. Tô no mundo torto, sem pai nem mãe, sem eira nem beira...mas continuo aqui, pro que for preciso. Oxalá Deus me ajude e os ruinzinhos não me perturbem, assim será.
segunda-feira
Pedras
Quando era criança, gostava de jogar pedras no lago, depois, cresci e continuei gostando de atirar pedras no lago, fiquei um pouco mais velho e ainda fazia isso. Agora, já idoso, desisti. Diacho de pedras que nunca acabam!
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