O indivíduo, de idade não revelada, caminhava
nas proximidades do Jóquei e queria morder um picolé que abunda naquela região,
mas acabou com a boca na perereca, que também existe, mas em menor quantidade.
As testemunhas asseveraram que o susto
foi tão grande que, o fulano passou mal e desmaiou nos braços, não sem antes
procurar em derredor, de um transeunte alto, bonito e musculoso. Foi preciso
reanimá-lo com vigorosos exercícios de respiração boca a boca com direito a
carícias e chamegos.
Quando a polícia finalmente chegou para
averiguar os fatos, o dito, o homem do picolé, que encontrava-se em condições bem
melhores, mas ainda muito abalado, jogou-se imediatamente nos braços do tenente
de olhar penetrante, calças justas, braços definidos e rosto quadrado, cujo nome Roque, bordado em dourado - obra de sua mãe - no uniforme cinza da PM lhe
conferia ainda mais o charme rude, porém sensível de todo metrossexual; e reclamou
em alto e bom som para quem quisesse ouvir que haviam lhe vendido gato por
lebre.
Ninguém entendeu o queixume porque o
sabor de gato, como todos sabem, é parecidíssimo ao da lebre, porém, bem mais barato!
O burburinho se avolumava, a plebe excitada gritava, vaiava, ululava de parte a
parte, uns defendendo o querelante, outros partindo para um princípio de puxões
de apliques, perucas, deslocamento de silicones e bofetões a esmo.
À polícia não houve alternativa e antes
que a confusão perturbasse o sossego de Cidade Jardim, enfiou todas as
testemunhas, entre elas o homem do picolé, bem no meio do camburão que saiu
loucamente com sua sirene piscante em direção à delegacia mais próxima.
Semanas depois do incidente, a
reconstituição dos fatos é bastante imprecisa, nebulosa, as pistas esparsas e
desencontradas. Há pelo menos duas versões.
As más línguas, que além de trabalharem
em ambiente insalubre, não sabem outra coisa a não ser fofocar, dizem que o
tenente Roque, o de olhos penetrantes, e o homem do picolé, voaram para as
ilhas Cayman e, neste momento, estão usufruindo a herança de uma velha tia que labutava
no La Licorne da Major Sertório e quando este faliu foi parar na sarjeta da
Amaral Gurgel.
Em companhia de Thor Batista e seu
possante Porsche descapotável - o que deixa suas madeixas louras mais lindas e
esvoaçantes ainda - passeiam o dia todo, ao Deus dará, bebendo champanhe Cristal.
Outras testemunhas asseveram que o
tenente Roque deu baixa da corporação, vive na periferia de São Paulo, em
companhia do homem do picolé e passam o dia treinando luta Greco-Romana.
Pretendem competir nas próximas Olimpíadas a serem realizadas no Rio de Janeiro
em categorias diferentes.
Inclusive, argumentam, Roque vai mudar de sexo
e identidade, passará a se chamar Lindofalda - homenagem ao pai, Lindolfo e a
mãe Mafalda - e, ambos, Lindofalda e o homem do picolé, cuja identidade jamais
saberemos, casarão de papel passado, tudo preto no branco.
Se a operação sair pela culatra, já que
os recursos são parcos e a única clínica que aceitou fazer a operação é
clandestina e pertence a dois médicos bolivianos sem CRM, mas com um estoque de
benzina suficiente para explodir o quarteirão, a Roque, ainda restará a Paraolimpíada
e o amor do homem do picolé.
Mas tudo são conjecturas de quem nunca
foi repórter ocular da história.
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