quinta-feira

Itapetininga

QUANDO LAURO LEVANTOU A LEBRE DA REMADA
No fim de semana anterior à descida do rio, estava no churrasco oferecido por Mr. Marcos Rodrigues, sujeito de fina estirpe e que graciosamente havia oferecido a sua bela casa de campo para nosso entourage, quando, a certa altura, o Lauro Pepper, ilustre psiquiatra sorocabano, propôs uma remada.
Já alcoolizado e embevecido, condição da quase totalidade dos participantes, topei no átimo. Ficou acertado que no domingo seguinte navegaríamos pelas águas turbulentas, assim achávamos devido às condições pluviométricas da estação, do rio Itapetininga.

A JORNADA ATÉ SARAPUÍ QUE NÃO FICA ASSIM TÃO PRÓXIMO À SOROCABA!
Domingo, seis de janeiro, cinco e meia da manhã o despertador toca, acordo com vontade de desistir. Maldita hora que havia aceitado participar da remada. O sono acumulado da semana pedia cama! Pensei em mandar uma mensagem para o Lauro. Reflito nos prós e contras. Amanhã é segunda, estarei praticamente inutilizado para o trabalho, em compensação, feliz por um dia entre os amigos. Opto pela remada. Tomo banho, me visto, engulo alguma coisa e pé na estrada. Saída pelo rodoanel, um pouco mais longe mas, sem dúvida, mais rápido.
Contudo, definitivamente, São Paulo não é para principiantes, basta uma placa errada e tudo estará perdido, além disso, há radares em todas as rodovias, velocidade controlada e reduzida no perímetro urbano, pedágios, muitos pedágios e, sim, absurdo dos absurdos, trânsito no domingo de madrugada!
Havíamos marcado as sete, sete e quinze em Sarapuí. Penso que em uma hora estarei por lá. Acelero. Cento e vinte, cento e quarenta. O percurso, todo anotado em uma folha à mão, diz para entrar na Castelinho, pegar a saída 7B, antes de Sorocaba, cair na Raposo, seguir até o quilômetro 140 ou 145, virar à direita em direção à Sarapuí e mais 9 quilômetros chegarei à cidade. Reza a lenda que o pessoal estará me esperando em frente à praça Matriz.
As sete de dez finalmente entro na Raposo. O coração bate acelerado, não chegarei a tempo, penso nos companheiros já impacientes no ponto de encontro. Olho a placa na beira da estrada, quilômetro 110, muito chão pela frente e, ainda por cima, com pista simples.
Resolvo ligar para o Lauro antes que a bateria do celular acabe (mais essa). Nosso ilustre psiquiatra atende com voz pastosa de quem acordou faz pouco, diz que se atrasarão. Respiro aliviado.

COMO SEMPRE, O CULPADO É O LEONE
Chego à praça as sete e quarenta e, incrível, sou o primeiro da turma. Sarapuí é pequena, duas ruas paralelas de paralelepípedo, meia dúzia transversais, casario antigo em derredor da Matriz, a igrejinha com sua escadaria começando na rua, enfim, uma típica cidade do interior do Estado de São Paulo, nem mais feia, nem mais bonita do que as demais, sem graça, sem encanto, perdida em sua modorra.
A esta hora, a praça encontra-se vazia, sonolenta, os poucos passantes me olham com uma mistura de escárnio e descrédito: O que um idiota da capital, vestido com roupa esquisita, faz aqui em pleno domingo, quase madrugada?
Bom, não me resta muita coisa a não ser tomar café no boteco da esquina. Peço uma média com pão na chapa. Não tem chapa, nem manteiga, só pão frio com margarina e o leite é esquentado no micro-ondas. Fazer o quê?! Com diz o ditado, entrou na chuva é para se molhar. O dono do estabelecimento me pergunta se não sou parente de fulano de tal de São Caetano, o sujeito é tal e qual igual a mim. Faço cara de ué, digo que não tenho parentes por lá, mas fico cabreiro, será que sou um tipo tão comum assim? Ou meu pai andou pulando cerca por lá? Em São Caetano? Tão longe? Melhor esquecer o assunto. Pago a conta e volto para o carro.
Trinta minutos depois, vejo pelo retrovisor duas canos paradas num congestionamento. Como? Congestionamento em uma cidadezinha do interior em pleno domingo? Rua estreita, uma carreta mal estacionada não permite a passagem de outra, mastodôntica. Os canoeiros somem de vista, calculo que resolveram fazer o contorno no quarteirão. Quando avisto um dos carros, ele está novamente atrás do caminhão que finalmente havia conseguido passar, mas atravancava a rua. Coisas de país que investe pesado no transporte de carga rodoviário.
O primeiro, é Fabrício, vegano, engenheiro, gente finíssima, não necessariamente nesta ordem. No outro, Jura Vbam, único no grupo que convive numa boa com um sujeito que tem canoa motorizada. Combino com Fabrício que descerei com ele. Enquanto conversamos, mais um se une ao pequeno grupo, Paulo Kuntz, autodenominado livre pensador, vegetariano, professor e matuto de Sorocaba. Pergunto por que não veio com o Lauro, afinal, moram no mesmo condomínio? Diz que se fosse esperar, ainda estaria por lá, se por acaso não conheço o Leone? Ainda bem que são apenas 20 quilômetros de remada. Coisa pouca.
Paulo começa a catar um taxista para nos auxiliar na logística. Uma Kombi seria ideal, pois somos 9, em 7 carros e 5 canoas. 
Mais alguns minutos e arribam Dr. Lauro e sua barba grisalha, sorriso largo e esbanjando bom humor matinal; o psicólogo Maurício, vulgo Bauru, alcunha que ganhou por gostar muito do sanduíche de mesmo nome; e Dr. André, médico em Campinas que já chega perguntando se até às cinco e meia teremos saído do rio, pois tem plantão à noite; finalmente o famigerado Leone, sujeito diverso, dado a esquisitices, profissional de TI, se não me engano, sua inseparável companheira de remadas, Tati e a inolvidável mascote canina, Duda.
Lauro diz que a culpa pelo atraso é do Leone, com meneios de cabeça, todos no grupo concordam.
Resolvo comprar algumas cervejas. Volto ao boteco, indago o que tem, o dono me responde que Brahma, Skol e Crystal. Dificílima escolha. Opto pela Skol, a menos ruim. Levo a mercadoria até a bolsa térmica rosa choque (hummmm) do Fabrício que em tom jocoso responde que havia trazido Heineken e não dividiria comigo. Nada como a camaradagem para animar um domingão.

A LOGÍSTICA E A KOMBI PARA SETE
Tudo certo, tudo pronto, mas nada de sair dali e já passam das dez. Escuto alguém dizer que encontrou o taxista. Finalmente, um pouco de ação. A logística, para mim, é sempre a parte mais chata da viagem. Levar as coisas para a beira do rio, descarregar, dirigir com os carros até o local de saída, voltar novamente à entrada com o táxi.
A viagem até o ponto de entrada é curta, apesar de empoeirada. O desembarque acontece depois de uma ponte, por uma picada íngreme, escondida e escorregadia. No meio do caminho há uma “pinguela”, estreita passando por cima de um fiapo d’água.
Todos agilizam-se e ajudam a levar as tralhas e as canoas até o barranco de embarque. Passar com as canoas pelos dois paus exige certo equilíbrio e destreza. A queda renderia bons machucados, principalmente nos mais rechonchudos e menos ágeis, como eu.
Todo equipamento na beira do rio, Mauricio Bauru e Tati, mais a perigosa Duda ficarão, enquanto nós outros seguiremos em direção à outra ponte. Desta vez o percurso é mais longo e mais empoeirado.
Ao chegar no ponto final, paramos os carros em frente a um boteco aberto porém vazio a essa hora da manhã. O lugar parece um bairro afastado da cidade, com algumas casas esparsas, o dito bar e mais à frente a ponte de madeira, nosso referencial, pois absolutamente ninguém trouxe GPS ou mapa. A Kombi já nos espera, embarcamos. O Lauro sobe no possante com a primeira cerveja do dia. Todos brincam e conversam animadamente, antevendo a descida do rio, sorrio para não parecer muito antipático, mas não escuto quase nada do que dizem graças ao barulho infernal que vem do motor da viatura.

ATÉ QUE ENFIM O RIO
Depois de mais de um ano e cinco longas horas, entrarei em um rio outra vez.  Enquanto vestimos os coletes e preparamos os barcos para colocá-los na água, surge um papo sobre cervejas. Fabrício diz que bebe pouco, por isso, só compra cervejas Premium, Lauro fala que há boas microcervejarias na região e também aderiu as Premium.  O assunto é encerrado quando alguém argumenta que no meio de um rio, longe da civilização, até Belco morna é uma maravilha.
Os primeiros a embarcar são Leone, sua fiel, dedicada e paciente escudeira, Tati, além da irascível Duda. Em seguida Fabrício e eu. Apesar das chuvas, o Itapetininga está baixo e há uma razoável distância entre o barranco e a água. É preciso cuidado para embarcar, algumas pedras que dão acesso às canos são escorregadias, estou fora de forma, sem prática, não quero dar vexame logo na entrada do rio. Faço um malabarismo danado para sentar no banco estreito, mas consigo, sem virar. Penso que Fabrício agradece mentalmente por não ser motivo de zombaria logo de início. Na sequência, Paulo e Dr. André, Jura Vbam e....seu muy amigo que não foi, portanto seguirá solo, por último Maurício Bauru e Lauro.
Todos passam pela prova com relativo louvor, inclusive Bauru, amigo do amigo da onça do Leone que trouxe um colete dois números menor para o rapaz e que não fecha de jeito algum. Argumentamos que ficaria difícil encontrar o corpo desse jeito, mas Mauricio Bauru não nos escuta. Tudo bem, qualquer coisa a culpa será do Leone.
Estou na proa e, teoricamente, não preciso me preocupar em manejar o barco, função de Fabrício. Como é bom remar novamente, mesmo sabendo que no final do dia sentirei umas tantas dores.
O rio Itapetininga faz parte da bacia do Paranapanema e segue lento até desaguar neste, lá para os lados de Campina do Monte Alegre. Onde estamos, mais a montante, suas águas barrentas tem uma quantidade impressionante de árvores caídas, algumas bloqueando quase a totalidade de sua largura, outras, com muitas galhadas atrapalhando a passagem e tantas ainda, traiçoeiras com troncos e tocos submersos.
A mata ciliar, relativamente bem preservada aos olhos de um leigo, é interrompida aqui e ali por pastos, áreas de reflorestamento e ranchos esporádicos muito mal ajambrados mas todos com pequenos embarcadouros, repletos de bancos de madeira para pescadores embriagados de fim de semana. A maioria pelos quais passamos estava vazio, o que realçava a impressão fantasmagórica e decadente.
Horas de remada depois, Fabrício finalmente me oferece uma Heineken, educadamente declino e peço que me passe a Skol, que gosto horrível! Daquele momento em diante, prometo aderir às Premium.
Começa a chover forte. Procuramos uma galhada para nos esconder. O dia lindo que a previsão havia prometido, pelo jeito, não foi convidado. Seguirá assim durante todo o percurso. Menos mal, um pouco de refresco do Sol inclemente e dos mosquitos será bem-vindo.
Não é fácil encontrar lugares adequados no rio, ou os ranchos estão ocupados, ou os embarcadouros estão muito altos, ou as poucas praias e ribanceiras são pequenas, barrentas e lodosas. Finalmente encontramos um arremedo de cais, plataforma bastante torta e semi-apodrecida, mas que servirá como primeira parada para esticar as pernas, comer um sanduíche, pitar um cigarro, dar uma mijadinha e jogar conversa fora.
Esperamos os outros, o que não demora muito. Ao desembarcar, de imediato, André pergunta pela segunda ou terceira vez a que horas chegaremos em nosso destino. Alguém fala em quatro e meia, mas como ninguém tem relógio e os que têm não estão muito preocupados com o horário, prevejo que nosso médico não consiga cumprir a contento seu acordo trabalhista.
Voltamos aos barcos, o rio, por ser relativamente estreito, com muitas curvas e obstáculos não possibilita remar com duas ou mais canoas emparelhadas, então, seguimos em fila indiana e, a cada nova árvore caída aguardamos os remadores, com desejo íntimo até cruel, é verdade, de que alguém vire e seja motivo de zombaria generalizada. Infelizmente, mesmo com os principiantes Maurício Bauru e André, ninguém capitulou.

A PONTE DE MADEIRA. O PONTO FINAL
A partir de determinado momento, minha memória torna-se nebulosa. Já não consigo lembrar com tanta vivacidade os detalhes, as paradas, os episódios. Os eventos se repetem sucessivamente, as galhadas, os desvios dos troncos, as remadas sincopadas, cada dupla seguindo uma toada relativamente autônoma, distanciada, espaçada, sem grandes paradas ou encontros, sem nada de muito interessante a contar, a não ser a insistência de André, que pergunta a que horas chegaremos e, invariavelmente, recebe a mesma resposta: umas quatro e meia. Às vezes surge uma brincadeira, um breve contato, uma conversa, mas o cansaço começa a mostrar a cara. Toda euforia da véspera e da manhã, vai gradativamente sumindo.
Nosso destino é uma ponte de madeira, no bairro da Várzea e o ponto de referência é uma ponte anterior de concreto, sinal que, a partir dela, falta pouco, só precisamos continuar remando. Simples assim.
Particularmente, achei que o trajeto entre a ponte de concreto e a de madeira seria mais curto, inclusive, comentei com o Fabrício que o fim se aproximava. Ledo engano.
Duas horas depois, finalmente a estrutura aparece. Como na entrada, a saída é um barranco íngreme e escorregadio que demanda cuidados extras, pois, todos estávamos cansados.
Agora é a parte mais pesada do dia. Sair da canoa, descarregar as tralhas, subir a ribanceira carregar tudo de todos, colocar no carro, amarrar, se trocar para partir.
Dupla a dupla arribam todos relativamente inteiros. Os últimos a desembarcar são Maurício, já desolado por causa do horário e Dr. Pepper, já bastante excedido em seu limite alcoólico.
Um som desvairadamente brega ecoa do bar outrora deserto, meia dúzia de gatos pingados e pinguços ri e joga à larga bilhar.
Um por vez, melancolicamente nos despedimos e partimos. Absorto em meus pensamentos, cansado porém revigorado pela pequena aventura domingueira com os amigos, dirijo calmamente em direção à cidade grande quando, no quilômetro 54 da Castello, um belo congestionamento me dá boas-vindas novamente à caótica e impossível São Paulo.

segunda-feira

Onde vamos parar?

O álcool não pega mais fogo.
A gasolina não mancha mais a pintura.
O Merthiolate não arde mais.

terça-feira

Baiano Vagabundo


Havia já várias horas na mesma toada e chegava perto o fim da tarde. Antes de escurecer era preciso encontrar lugar para montar acampamento.
Rio Cristalino, entre Araguaia e Mortes, merecia o nome! Vinha serpenteando desde a nascente em baixios, pequenos canais, lagoas, sempre com água translúcida e quase pura, ainda era bonito demais.
Nas margens, entre um rancho e outro, as fazendas dominavam. Mata ciliar aqui e ali dava as caras, mais cerrada, mais mirrada, mas sempre com um rastrinho.
Tinha leve lembrança daquele trecho do rio e da praia depois da curva, Certeza, certeza não podia asseverar, já fazia alguns anos desde a última vez e a memória fraquejava.
Embiquei a proa mais para contorno aberto, pior para remar, mas queria ver se a dita estava lá e ainda do mesmo jeitão.
Depois de algum tempo nessa prática, você começa a conhecer os caprichos de rio que, como mulher, resolve mudar nossa vida assim, de supetão, sem avisar, sem comunicar. De uma estação para outra, o que tinha lá, podia não estar mais.
Em época de chuva, violento, invade pastagens, derruba árvores, abre passagem à força e vem carregando tudo que encontra pelo caminho. Quando seca, a história é outra, corre pro seu destino, dentro da normalidade, mansinho, mansinho...
Desta vez o danado tinha deixado tudo como antes e, no final da curva, a bonita apareceu, areia branquinha, bem larga na beirada d’água e estreitando conforme ia sumindo de vista, para terminar numa lagoa perene, lagoa de lontras, assim ouvira dizer por que, ir até lá, não me animei não.
De um lado, a mata densa e preservada, sombreava um corredor de areia, do outro, apenas uns cocurutos pingados de capim. Alguns paus fincados, restos de uma bancada, eram os únicos vestígios de gente que por lá havia ficado.
Apressei a remada e nem me preocupei em enfiar a popa na areia, quase até a metade do barco, coisa de gente bisonha, pensei. Remador experiente como mestre Tonico, mostrava destreza e habilidade, manobrava a bicha encostando de bombordo ou estibordo e descendo com os pés fincados em terra firme.
Cansado, queria mais chegar! Meu desejo era aprontar tudo logo, dar um mergulho e relaxar à beira do fogo, junto dos capebas. Naquela lonjura pouca coisa restava.
Desembarquei e fui procurar lugar para armar acampamento. Desejava um sombreado fresco, plano e sem o orvalho da madrugada. Quando encontrei, velho Caco já havia tomado posse.  O impasse quase certo se dissolveu de imediato. Por reverência e primazia da idade, declinei e me contentei com um meio termo, pouco mais distante, entre galhadas e Sol, mas bastava empurrar a barraca um pouco mais para o fundo que ia dar um bom lugar.
Depois de tudo pronto, voltei para o rio e me deixei ficar deitado na água límpida, refazendo as energias. Calorão danado fazia em julho naquela terra. Para os nativos era alta estação, verão de tempo firme, nenhuma chuva, tempo de fugir da cidade e acampar ao longo das praias que apareciam nos rios.
No Araguaia, caudaloso, largo, barrento e de fácil acesso, elas ficavam lotadas de barracas, bares improvisados, som no último volume e de gosto duvidoso, lanchas, Jet-skis, vendedores ambulantes, toda fauna semelhante, igual às análogas do litoral.
Já o Cristalino, exigia poeira, buraco e quilômetros de disposição. Acabava afastando gente acomodada, preguiçosa por conforto, mesmo assim, de para em par, aqui e ali, famílias inteiras acampavam com requintes de conforto, com gerador, chuveiro quente, geladeira e traquitanas de cidade.
E o danado tinha motivo de sobra para chamar Cristalino! Em quase toda extensão se via o fundo arenoso, as plantas aquáticas, algumas tartarugas, um ou outro jacaré ainda incólume às armas goianas. Nas enseadas rasinhas, dava para observar os ninhos redondos de tucunaré, cardumes de pequenos peixes e as arraias, muitas, que se escondiam e se confundiam com a areia.
Sobre elas, tinha sido alertado diversas vezes que todo cuidado se fazia necessário. Quando alguém pisava numa, o ferrão pontiagudo rasgava a pele injetando veneno. Dor quase insuportável aquela, depois, febre constante, as chagas purulentas que podiam durar meses, anos até, e o pior, a aventura peridada. Afinal, o sujeito ficava imprestável, sem conseguir remar, nem nada. Por isso, sempre recomendavam entrar na água arrastando os pés, fazendo barulho com a pá do remo para afugentar as danadas.
Mais bonito que o rio, se é que podia ter, era o céu, sem branca nuvem, dum azul de queimar os olhos! Quando amanhecia ou anoitecia, então, um festival de vermelhão alaranjado se sobrepondo e competindo para ver quem ganhava. Noite sem lua, bastava fixar a vista no firmamento que parecia festa no céu, estrela de perder a conta.
 Ensimesmado, saí da água. De banho tomado, roupa seca e limpa, sentei junto dos demais à beira da fogueira. Entre uma talagada e outra de abrideira, me deixei ficar, contemplando a imensidão solitária do cerrado. Aqui e ali, abrolhava uma conversa fiada que murchava e ressurgia, murchava e ressurgia, fazendo eco ao canto do Jaó, dolente, saudoso, como se soubesse que mais cedo ou mais tarde, seu encontro com a pintada havia de lhe dar cabo à existência!
Contava a gente matuta, conversa para boi dormir, é claro, que a onça, esperta como ela só, ficava ali, quietinha, quietinha, imitando o canto da ave terreira - do tamanho e da idiotice da galinha - que vinha vindo para ver o que é que há e, quando chegava já era. A danada papava a janta.
Expulsei a tontice da cabeça, tomei mais um gole da Parati e esfreguei com carinho a caixa de madeira. O amarelo-dourado da embalagem, a tipologia antiga, tudo remetia ao que eu considerava de melhor. Apreciei tempos passados quando ainda tinha verba para queimar.
Abri com cuidado, no fundo ainda repousavam dois estoura peito. Havia comprado 15, isso significava que a jornada chegava perto de seu destino, a balsa para Luis Alves.
Saquei um e rolei - mais por habito que sabedoria de profundo conhecedor - entre o indicador e o polegar por alguns segundos. Coloquei-o entre os lábios e acendi o ordinário. Absorvi uma bela baforada, suspirei e divaguei cá comigo, mesmo aquele fedorento tinha lá seu sabor!  Não que não houvesse bons baianos, muito pelo contrário, só que no momento estavam caros para o meu bolso, então o negócio era se contentar com aquele mesmo, sem marca, vendido a granel, escondido num canto da prateleira (de baixo), bem longe dos bons nacionais e mais distante ainda dos cubanos.
Recostei na cadeira e deixei o pensamento fluir. Só mais dois charutos, que pena! Por que não havia comprado mais? 20 quem sabe? Quem sabe conseguiria enganar a verdade, com a falsa sensação de alongamento da aventura, de que ainda faltavam mais dias, afinal, ainda há charutos na caixa!? Quem sabe a dilatação dessa sensação boa, de se deixar ficar, sem hora, sem compromisso? Perdido, escondido, no meio do mato, comigo mesmo?
Olhei em derredor, parecia que meus pensamentos tinham contaminado o grupo. A conversa havia esmaecido, restavam muxoxos tímidos de tristeza, todos olhavam o nada, acabrunhados, perdidos.
Qual, cérebro maldito. Dentre em pouco a viagem faria parte de nossas histórias, ficaria no passado, na lembrança quase apagada da memória. Voltaríamos para o dia-a-dia entediante de cidade grande, para a estafante rotina do caos urbano.
Contra o inevitável não havia o que fazer. Melhor era se deixar largar naquela calma bucólica de um paraíso quase perdido, por ora era melhor esquecer os compromissos agendados e a aflição das contas, por ora era melhor esquecer os problemas domésticos que espreitavam a chegada, por ora era melhor apreciar aquele baiano vagabundo e espantar com sua fumaça tóxica os pernilongos renitentes que insistiam em zumbir em meu ouvido, apenas por ora...

Ditaduras

Hoje em dia, há muitas ditaduras; a ditadura da moda, a ditadura do corpo, a ditadura do politicamente correto, a ditadura do sucesso, a ditadura da juventude, a ditadura da eterna juventude também, a ditadura da alimentação saudável, a ditadura de ter e sempre mais, a ditadura do neoliberalismo, a ditadura dos eco chatos....o mundo ficou pequeno para tantas limitações. 
No meu tempo era bem mais fácil identificar quem realmente precisávamos combater. A ditadura era só política.

segunda-feira

O Picolé de Perereca

A notícia era clara e límpida como o Tietê. Saiu na primeira página do jornal: homem acha perereca ao morder picolé e passa mal.
O indivíduo, de idade não revelada, caminhava nas proximidades do Jóquei e queria morder um picolé que abunda naquela região, mas acabou com a boca na perereca, que também existe, mas em menor quantidade.
As testemunhas asseveraram que o susto foi tão grande que, o fulano passou mal e desmaiou nos braços, não sem antes procurar em derredor, de um transeunte alto, bonito e musculoso. Foi preciso reanimá-lo com vigorosos exercícios de respiração boca a boca com direito a carícias e chamegos.
Quando a polícia finalmente chegou para averiguar os fatos, o dito, o homem do picolé, que encontrava-se em condições bem melhores, mas ainda muito abalado, jogou-se imediatamente nos braços do tenente de olhar penetrante, calças justas, braços definidos e rosto quadrado, cujo nome Roque, bordado em dourado - obra de sua mãe - no uniforme cinza da PM lhe conferia ainda mais o charme rude, porém sensível de todo metrossexual; e reclamou em alto e bom som para quem quisesse ouvir que haviam lhe vendido gato por lebre.
Ninguém entendeu o queixume porque o sabor de gato, como todos sabem, é parecidíssimo ao da lebre, porém, bem mais barato! O burburinho se avolumava, a plebe excitada gritava, vaiava, ululava de parte a parte, uns defendendo o querelante, outros partindo para um princípio de puxões de apliques, perucas, deslocamento de silicones e bofetões a esmo.
À polícia não houve alternativa e antes que a confusão perturbasse o sossego de Cidade Jardim, enfiou todas as testemunhas, entre elas o homem do picolé, bem no meio do camburão que saiu loucamente com sua sirene piscante em direção à delegacia mais próxima.
Semanas depois do incidente, a reconstituição dos fatos é bastante imprecisa, nebulosa, as pistas esparsas e desencontradas. Há pelo menos duas versões.
As más línguas, que além de trabalharem em ambiente insalubre, não sabem outra coisa a não ser fofocar, dizem que o tenente Roque, o de olhos penetrantes, e o homem do picolé, voaram para as ilhas Cayman e, neste momento, estão usufruindo a herança de uma velha tia que labutava no La Licorne da Major Sertório e quando este faliu foi parar na sarjeta da Amaral Gurgel.  
Em companhia de Thor Batista e seu possante Porsche descapotável - o que deixa suas madeixas louras mais lindas e esvoaçantes ainda - passeiam o dia todo, ao Deus dará, bebendo champanhe Cristal.
Outras testemunhas asseveram que o tenente Roque deu baixa da corporação, vive na periferia de São Paulo, em companhia do homem do picolé e passam o dia treinando luta Greco-Romana. Pretendem competir nas próximas Olimpíadas a serem realizadas no Rio de Janeiro em categorias diferentes.
Inclusive, argumentam, Roque vai mudar de sexo e identidade, passará a se chamar Lindofalda - homenagem ao pai, Lindolfo e a mãe Mafalda - e, ambos, Lindofalda e o homem do picolé, cuja identidade jamais saberemos, casarão de papel passado, tudo preto no branco.
Se a operação sair pela culatra, já que os recursos são parcos e a única clínica que aceitou fazer a operação é clandestina e pertence a dois médicos bolivianos sem CRM, mas com um estoque de benzina suficiente para explodir o quarteirão, a Roque, ainda restará a Paraolimpíada e o amor do homem do picolé.
Mas tudo são conjecturas de quem nunca foi repórter ocular da história.

sexta-feira

Picolé com Perereca



Deu no jornal: homem acha perereca ao morder picolé e passa mal. 
Também, pudera, ele esperava uma coisa e encontra outra!

segunda-feira

Coffee Break

Na virada cultural, passo em frente a um treme-treme na antiga boca do lixo, hoje cracolândia, que ostenta uma placa com as seguintes informações: hotel Tobias Barreto, com estacionamento e coffee break.
Fico a imaginar a contratada bem no meio do serviço, algumas de boca cheia, falando para o seu parceiro de ocasião: - amor, agora é hora do coffee break, daqui a quinze minutos terminamos o serviço!
Tempos modernos, fodas rápidas, mas sempre com direito a cafezinho no meio, afinal, ninguém é de ferro.