QUANDO LAURO LEVANTOU A LEBRE DA
REMADA
No fim de semana anterior à descida do rio, estava no churrasco oferecido
por Mr. Marcos Rodrigues, sujeito de fina estirpe e que graciosamente havia
oferecido a sua bela casa de campo para nosso entourage, quando, a certa
altura, o Lauro Pepper, ilustre psiquiatra sorocabano, propôs uma remada.
Já alcoolizado e embevecido, condição da quase totalidade dos participantes,
topei no átimo. Ficou acertado que no domingo seguinte navegaríamos pelas águas
turbulentas, assim achávamos devido às condições pluviométricas da estação, do
rio Itapetininga.
A JORNADA ATÉ SARAPUÍ QUE NÃO FICA
ASSIM TÃO PRÓXIMO À SOROCABA!
Domingo, seis de janeiro, cinco e meia da manhã o despertador toca,
acordo com vontade de desistir. Maldita hora que havia aceitado participar da
remada. O sono acumulado da semana pedia cama! Pensei em mandar uma mensagem
para o Lauro. Reflito nos prós e contras. Amanhã é segunda, estarei
praticamente inutilizado para o trabalho, em compensação, feliz por um dia
entre os amigos. Opto pela remada. Tomo banho, me visto, engulo alguma coisa e
pé na estrada. Saída pelo rodoanel, um pouco mais longe mas, sem dúvida, mais
rápido.
Contudo, definitivamente, São Paulo não é para principiantes, basta uma
placa errada e tudo estará perdido, além disso, há radares em todas as
rodovias, velocidade controlada e reduzida no perímetro urbano, pedágios,
muitos pedágios e, sim, absurdo dos absurdos, trânsito no domingo de madrugada!
Havíamos marcado as sete, sete e quinze em Sarapuí. Penso que em uma hora
estarei por lá. Acelero. Cento e vinte, cento e quarenta. O percurso, todo
anotado em uma folha à mão, diz para entrar na Castelinho, pegar a saída 7B,
antes de Sorocaba, cair na Raposo, seguir até o quilômetro 140 ou 145, virar à
direita em direção à Sarapuí e mais 9 quilômetros chegarei à cidade. Reza a
lenda que o pessoal estará me esperando em frente à praça Matriz.
As sete de dez finalmente entro na Raposo. O coração bate acelerado, não
chegarei a tempo, penso nos companheiros já impacientes no ponto de encontro. Olho
a placa na beira da estrada, quilômetro 110, muito chão pela frente e, ainda
por cima, com pista simples.
Resolvo ligar para o Lauro antes que a bateria do celular acabe (mais
essa). Nosso ilustre psiquiatra atende com voz pastosa de quem acordou faz
pouco, diz que se atrasarão. Respiro aliviado.
COMO SEMPRE, O CULPADO É O LEONE
Chego à praça as sete e quarenta e, incrível, sou o primeiro da turma.
Sarapuí é pequena, duas ruas paralelas de paralelepípedo, meia dúzia
transversais, casario antigo em derredor da Matriz, a igrejinha com sua
escadaria começando na rua, enfim, uma típica cidade do interior do Estado de
São Paulo, nem mais feia, nem mais bonita do que as demais, sem graça, sem
encanto, perdida em sua modorra.
A esta hora, a praça encontra-se vazia, sonolenta, os poucos passantes me
olham com uma mistura de escárnio e descrédito: O que um idiota da capital,
vestido com roupa esquisita, faz aqui em pleno domingo, quase madrugada?
Bom, não me resta muita coisa a não ser tomar café no boteco da esquina.
Peço uma média com pão na chapa. Não tem chapa, nem manteiga, só pão frio com
margarina e o leite é esquentado no micro-ondas. Fazer o quê?! Com diz o
ditado, entrou na chuva é para se molhar. O dono do estabelecimento me pergunta
se não sou parente de fulano de tal de São Caetano, o sujeito é tal e qual igual
a mim. Faço cara de ué, digo que não tenho parentes por lá, mas fico cabreiro,
será que sou um tipo tão comum assim? Ou meu pai andou pulando cerca por lá? Em
São Caetano? Tão longe? Melhor esquecer o assunto. Pago a conta e volto para o
carro.
Trinta minutos depois, vejo pelo retrovisor duas canos paradas num
congestionamento. Como? Congestionamento em uma cidadezinha do interior em
pleno domingo? Rua estreita, uma carreta mal estacionada não permite a passagem
de outra, mastodôntica. Os canoeiros somem de vista, calculo que resolveram
fazer o contorno no quarteirão. Quando avisto um dos carros, ele está novamente
atrás do caminhão que finalmente havia conseguido passar, mas atravancava a
rua. Coisas de país que investe pesado no transporte de carga rodoviário.
O primeiro, é Fabrício, vegano, engenheiro, gente finíssima, não
necessariamente nesta ordem. No outro, Jura Vbam, único no grupo que convive
numa boa com um sujeito que tem canoa motorizada. Combino com Fabrício que
descerei com ele. Enquanto conversamos, mais um se une ao pequeno grupo, Paulo
Kuntz, autodenominado livre pensador, vegetariano, professor e matuto de
Sorocaba. Pergunto por que não veio com o Lauro, afinal, moram no mesmo
condomínio? Diz que se fosse esperar, ainda estaria por lá, se por acaso não
conheço o Leone? Ainda bem que são apenas 20 quilômetros de remada. Coisa
pouca.
Paulo começa a catar um taxista para nos auxiliar na logística. Uma Kombi
seria ideal, pois somos 9, em 7 carros e 5 canoas.
Mais alguns minutos e arribam Dr. Lauro e sua barba grisalha, sorriso
largo e esbanjando bom humor matinal; o psicólogo Maurício, vulgo Bauru,
alcunha que ganhou por gostar muito do sanduíche de mesmo nome; e Dr. André,
médico em Campinas que já chega perguntando se até às cinco e meia teremos
saído do rio, pois tem plantão à noite; finalmente o famigerado Leone, sujeito
diverso, dado a esquisitices, profissional de TI, se não me engano, sua
inseparável companheira de remadas, Tati e a inolvidável mascote canina, Duda.
Lauro diz que a culpa pelo atraso é do Leone, com meneios de cabeça, todos
no grupo concordam.
Resolvo comprar algumas cervejas. Volto ao boteco, indago o que tem, o dono
me responde que Brahma, Skol e Crystal. Dificílima escolha. Opto pela Skol, a menos
ruim. Levo a mercadoria até a bolsa térmica rosa choque (hummmm) do Fabrício
que em tom jocoso responde que havia trazido Heineken e não dividiria comigo.
Nada como a camaradagem para animar um domingão.
A LOGÍSTICA E A KOMBI PARA SETE
Tudo certo, tudo pronto, mas nada de sair dali e já passam das dez.
Escuto alguém dizer que encontrou o taxista. Finalmente, um pouco de ação. A logística, para mim, é sempre a parte mais
chata da viagem. Levar as coisas para a beira do rio, descarregar, dirigir com
os carros até o local de saída, voltar novamente à entrada com o táxi.
A viagem até o ponto de entrada é curta, apesar de empoeirada. O
desembarque acontece depois de uma ponte, por uma picada íngreme, escondida e
escorregadia. No meio do caminho há uma “pinguela”, estreita passando por cima
de um fiapo d’água.
Todos agilizam-se e ajudam a levar as tralhas e as canoas até o barranco
de embarque. Passar com as canoas pelos dois paus exige certo equilíbrio e
destreza. A queda renderia bons machucados, principalmente nos mais
rechonchudos e menos ágeis, como eu.
Todo equipamento na beira do rio, Mauricio Bauru e Tati, mais a perigosa
Duda ficarão, enquanto nós outros seguiremos em direção à outra ponte. Desta
vez o percurso é mais longo e mais empoeirado.
Ao chegar no ponto final, paramos os carros em frente a um boteco aberto
porém vazio a essa hora da manhã. O lugar parece um bairro afastado da cidade,
com algumas casas esparsas, o dito bar e mais à frente a ponte de madeira,
nosso referencial, pois absolutamente ninguém trouxe GPS ou mapa. A Kombi já nos
espera, embarcamos. O Lauro sobe no possante com a primeira cerveja do dia.
Todos brincam e conversam animadamente, antevendo a descida do rio, sorrio para
não parecer muito antipático, mas não escuto quase nada do que dizem graças ao
barulho infernal que vem do motor da viatura.
ATÉ QUE ENFIM O RIO
Depois de mais de um ano e cinco longas horas, entrarei em um rio outra
vez. Enquanto vestimos os coletes e
preparamos os barcos para colocá-los na água, surge um papo sobre cervejas.
Fabrício diz que bebe pouco, por isso, só compra cervejas Premium, Lauro fala
que há boas microcervejarias na região e também aderiu as Premium. O assunto é encerrado quando alguém argumenta
que no meio de um rio, longe da civilização, até Belco morna é uma maravilha.
Os primeiros a embarcar são Leone, sua fiel, dedicada e paciente
escudeira, Tati, além da irascível Duda. Em seguida Fabrício e eu. Apesar das
chuvas, o Itapetininga está baixo e há uma razoável distância entre o barranco
e a água. É preciso cuidado para embarcar, algumas pedras que dão acesso às
canos são escorregadias, estou fora de forma, sem prática, não quero dar vexame
logo na entrada do rio. Faço um malabarismo danado para sentar no banco
estreito, mas consigo, sem virar. Penso que Fabrício agradece mentalmente por
não ser motivo de zombaria logo de início. Na sequência, Paulo e Dr. André,
Jura Vbam e....seu muy amigo que não foi, portanto seguirá solo, por último
Maurício Bauru e Lauro.
Todos passam pela prova com relativo louvor, inclusive Bauru, amigo do
amigo da onça do Leone que trouxe um colete dois números menor para o rapaz e que
não fecha de jeito algum. Argumentamos que ficaria difícil encontrar o corpo
desse jeito, mas Mauricio Bauru não nos escuta. Tudo bem, qualquer coisa a
culpa será do Leone.
Estou na proa e, teoricamente, não preciso me preocupar em manejar o
barco, função de Fabrício. Como é bom remar novamente, mesmo sabendo que no
final do dia sentirei umas tantas dores.
O rio Itapetininga faz parte da bacia do Paranapanema e segue lento até
desaguar neste, lá para os lados de Campina do Monte Alegre. Onde estamos, mais
a montante, suas águas barrentas tem uma quantidade impressionante de árvores
caídas, algumas bloqueando quase a totalidade de sua largura, outras, com
muitas galhadas atrapalhando a passagem e tantas ainda, traiçoeiras com troncos
e tocos submersos.
A mata ciliar, relativamente bem preservada aos olhos de um leigo, é
interrompida aqui e ali por pastos, áreas de reflorestamento e ranchos
esporádicos muito mal ajambrados mas todos com pequenos embarcadouros, repletos
de bancos de madeira para pescadores embriagados de fim de semana. A maioria
pelos quais passamos estava vazio, o que realçava a impressão fantasmagórica e
decadente.
Horas de remada depois, Fabrício finalmente me oferece uma Heineken,
educadamente declino e peço que me passe a Skol, que gosto horrível! Daquele
momento em diante, prometo aderir às Premium.
Começa a chover forte. Procuramos uma galhada para nos esconder. O dia
lindo que a previsão havia prometido, pelo jeito, não foi convidado. Seguirá
assim durante todo o percurso. Menos mal, um pouco de refresco do Sol
inclemente e dos mosquitos será bem-vindo.
Não é fácil encontrar lugares adequados no rio, ou os ranchos estão
ocupados, ou os embarcadouros estão muito altos, ou as poucas praias e
ribanceiras são pequenas, barrentas e lodosas. Finalmente encontramos um
arremedo de cais, plataforma bastante torta e semi-apodrecida, mas que servirá
como primeira parada para esticar as pernas, comer um sanduíche, pitar um
cigarro, dar uma mijadinha e jogar conversa fora.
Esperamos os outros, o que não demora muito. Ao desembarcar, de imediato,
André pergunta pela segunda ou terceira vez a que horas chegaremos em nosso
destino. Alguém fala em quatro e meia, mas como ninguém tem relógio e os que
têm não estão muito preocupados com o horário, prevejo que nosso médico não
consiga cumprir a contento seu acordo trabalhista.
Voltamos aos barcos, o rio, por ser relativamente estreito, com muitas
curvas e obstáculos não possibilita remar com duas ou mais canoas emparelhadas,
então, seguimos em fila indiana e, a cada nova árvore caída aguardamos os
remadores, com desejo íntimo até cruel, é verdade, de que alguém vire e seja
motivo de zombaria generalizada. Infelizmente, mesmo com os principiantes
Maurício Bauru e André, ninguém capitulou.
A PONTE DE MADEIRA. O PONTO FINAL
A partir de determinado momento, minha memória torna-se nebulosa. Já não
consigo lembrar com tanta vivacidade os detalhes, as paradas, os episódios. Os
eventos se repetem sucessivamente, as galhadas, os desvios dos troncos, as
remadas sincopadas, cada dupla seguindo uma toada relativamente autônoma,
distanciada, espaçada, sem grandes paradas ou encontros, sem nada de muito
interessante a contar, a não ser a insistência de André, que pergunta a que
horas chegaremos e, invariavelmente, recebe a mesma resposta: umas quatro e
meia. Às vezes surge uma brincadeira, um breve contato, uma conversa, mas o
cansaço começa a mostrar a cara. Toda euforia da véspera e da manhã, vai gradativamente
sumindo.
Nosso destino é uma ponte de madeira, no bairro da Várzea e o ponto de
referência é uma ponte anterior de concreto, sinal que, a partir dela, falta
pouco, só precisamos continuar remando. Simples assim.
Particularmente, achei que o trajeto entre a ponte de concreto e a de
madeira seria mais curto, inclusive, comentei com o Fabrício que o fim se
aproximava. Ledo engano.
Duas horas depois, finalmente a estrutura aparece. Como na entrada, a
saída é um barranco íngreme e escorregadio que demanda cuidados extras, pois,
todos estávamos cansados.
Agora é a parte mais pesada do dia. Sair da canoa, descarregar as
tralhas, subir a ribanceira carregar tudo de todos, colocar no carro, amarrar,
se trocar para partir.
Dupla a dupla arribam todos relativamente inteiros. Os últimos a
desembarcar são Maurício, já desolado por causa do horário e Dr. Pepper, já
bastante excedido em seu limite alcoólico.
Um som desvairadamente brega ecoa do bar outrora deserto, meia dúzia de
gatos pingados e pinguços ri e joga à larga bilhar.
Um por vez, melancolicamente nos despedimos e partimos. Absorto em meus
pensamentos, cansado porém revigorado pela pequena aventura domingueira com os
amigos, dirijo calmamente em direção à cidade grande quando, no quilômetro 54
da Castello, um belo congestionamento me dá boas-vindas novamente à caótica e
impossível São Paulo.
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