quinta-feira

O Bilhete

Desde que cheguei, o bilhete de loteria está lá, na outra mesa, abandonado, metade dele debaixo de um caderno espiral com capa de coala. Um asterisco, marcado ao lado do número 21 - em caneta bic azul marinho - absolutamente não me diz nada. Mas, para alguém devia representar sorte, ou pelo menos, fazer parte de uma lista pré-determinada daqueles que sempre usam os mesmos números em todas as suas apostas.
Todo dia nos olhamos e reciprocamente nos ignoramos. Ele me deixa seguir meu caminho e eu não tomo nenhuma providência, nem para dar-lhe um fim mais digno do que mofar em uma mesa de escritório, jogando-o no lixo reciclável, ou lembrando-me de apostar em uma lotérica aqui perto. Apenas nos saudamos com o olhar frio e distante que deve haver entre um papel e um ser humano e nada mais.
Para muitos, poderia ser um sinal do destino me avisando que deveria apostar, afinal, quantas mesas de quantos escritórios pode ficar um mísero bilhete, todos os dias, durante semanas sem ser tocado por faxineiras ou funcionários?  Para mim, é apenas a sina de uma mesa vazia, sem utilidade prática a não ser acumular papéis.
A cada noite, antes de sair, fico relutante e penso em dar cabo ao bilhete, mas vou embora e acabo me convencendo que isso deveria ser feito por outra pessoa, nem me despeço, nem me comovo. Apenas parto acabrunhado com minhas preocupações, angústias e dúvidas, dizendo a mim mesmo, amanhã quem sabe? Posso jogar ou jogá-lo. Mas somente amanhã, quem sabe.

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