Vestia preto, parecia de meia-idade e estava lá, parada junto ao totem do metrô. Imediatamente comecei a pensar coisas.
O que faria uma mulher como ela, àquela hora na estação? Não que fosse noite, quase madrugada, mas naquele instante, maciçamente, saíam trabalhadores e estudantes. Além do mais, a dita não tinha lá modos de quem se locomove publicamente, de metrô, ônibus então....
Os gestos, as atitudes, demonstravam insatisfação. Desconforto em esperar quem não vinha. Dado o atraso, machistamente raciocinei que certamente o carona só podia ser mulher, especialistas em irritantes tardanças.
Quem sabe, o amante? Preso no trânsito, no trabalho, com a titular, abarrotado de desculpas esfarrapadas, sabe-se lá.
No mínimo o marido que dava bolo. A briga seria boa, esfreguei as mãos antevendo o conflito.
Tive pensamentos dissolutos. A dama quase passada ainda dava caldo. O vestido preto e justo insinuava um corpo gostosamente carnudo. Nem gordo, nem magro, no limiar. Quis sentir seu perfume. Que aroma teria? Almejei agarrá-la, fungar seu cangote, morder o pescoço, acariciar sua bunda.
Prontamente, o cérebro me castigou recordando impropérios femininos que receberia. Velho safado, só pensa em sexo, coisas do gênero.
Enveredei por considerações baratas. A crise da finitude, a eterna busca da juventude. Comparei os sexos. Mulheres mascaram a idade com cirurgias plásticas e cremes, homens conservam seu viço e virilidade caçando carne fresca, nova. Enquanto há tempo. Justificativas mais que grosseiras para o desejo masculino por saias.
Tentei desviar o juízo. Varrer as más idéias da cabeça. Voltei-me para as dívidas, os problemas com as filhas, o banco que não parava de ligar, as prestações atrasadas do carro, o emprego comezinho, as brigas infindáveis com a mulher, a troco de nada, discussões que nunca levavam a lugar algum.
Mas qual, meus olhos e desejos encontravam-se lá, na maldita.
E se fosse algo mais sério? Se a senhora estivesse vindo de um enterro? Vestia preto! De parente próximo, pai, mãe, irmãos, filhos? Meu Deus, merecia no mínimo o limbo. Podia ser coisa menos agoniada. Uma entrevista de trabalho, quem sabe. É preciso caprichar, fazer bonito para o futuro patrão. E, nestas ocasiões, nada melhor do que um pretinho básico. Pelo menos, é o que dizem as mulheres. Encontro social com as amigas? Possível. Um chá da tarde? Imbecilidade minha. Será que ainda existe isso? Quem sabe coisa mais comum. Sessão de cinema ou teatro. Mas, então, porque a moça andava tão incomodada?
Agoniei. Alguém precisava se movimentar. E esse alguém era ela!
Comecei a enraivecer. Os pensamentos libidinosos transformaram-se em silenciosa e crescente cólera! Não pensava mais em coxas, peitos, bunda, mas em como me livrar dela!
Porque não ia logo, desgraçada. Só servia para perturbar meu sossego com conjecturas fantasiosas!
Arquitetava suposições. A mais óbvia presumia o carona chegar. Mas nada corroborava a hipótese. A dona continuava a fitar o além, ensimesmada, a esperar. Nenhum carro a fazia alargar o sorriso, prenúncio de gente conhecida.
Podia partir em um taxi, havia ponto na esquina. Mas, pelo visto, não parecia opção. Insistia em aguardar. Conspirei por uma cantada, quem sabe surtiria efeito. E quem disse que era dona fácil? Destas que por quase nada topam entrar em carro alheio? Não, não, o negócio seria desistir, cansar. Voltar de onde viera. Penetrar na estação, pegar o metrô e ir-se, para nunca mais.
Colérico, pensei em sair do carro, caminhar até a dita e vociferar palavras indesejáveis. Espantá-la como inseto impertinente. Por covardia ou por vergonha, as forças me faltaram. O que todos iriam pensar? Seria internado. Ri de meus pobres pensamentos. Quanta bobagem. Melhor sair dali, esperar em outro lugar.
Reparei em um carro que encostava no meio fio. A mulher fez menção de movimentar-se. Respirei aliviado, porém, cedo demais. Limitou-se a um gesto e nada mais, meu Deus, não era o carona!
O automóvel saiu e a dona continuou lá, estática. Em pé, com a mesma cara de tédio. Liguei o carro, acelerei forte, disposto a um último e alucinado ato. Ia atropelá-la, subir na calçada, passar por cima, encerrar o martírio, colocar um ponto final na história. Iria preso, mas manteria a minha sanidade. Quando percebi uma sirene atrás de mim. A viatura havia estacionado com intenções de colocar ordem na barafunda. O guarda vinha em minha direção, com o bloco de multas na mão. Agradeci o sinal de além e mais que depressa parti. Só me restava uma volta no quarteirão. Ao virar a esquina, olhei pelo retrovisor, uma última olhada naquela carne gostosa, naquele vestido preto justo que jamais havia reparado em mim. Podia ser a última vez que a via enfastiada em frente ao totem....
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